Um órgão semelhante a um rim, desenvolvido de raiz em laboratório, demonstrou ser funcional em ratos – um feito que poderá ser o princípio do desenvolvimento de rins de um ser humano, a partir das suas próprias células estaminais. Investigadores de Itália, Escócia e Inglaterra estão a estudar a viabilidade desta hipótese.
É geral: a doação de rins é alvo de uma procura considerável no mundo inteiro. Só no Reino Unido, há 7200 pessoas em lista de espera – uma situação que uma nova investigação poderá aliviar. Para já, nos laboratórios europeus, foi dado um pequeno passo nesse sentido.
Christodoulos Xinaris e colegas de trabalho – do Instituto para a Investigação de Farmacologia Mario Negri, em Bérgamo, Itália – extraíram células de rins de um embrião de rato em gestação no ventre da mãe. As células formaram grupos que viriam a desenvolver-se no espaço de uma semana em laboratório, tornando-se “organoides”, contendo um fino “encanamento de néfrones” – a unidade funcional básica do rim. Um rim humano pode conter acima de um milhão de néfrones.
Caldo químico
A seguir, a equipa de Xinaris marinou os organoides num caldo químico chamado VEGF [fator de crescimento vascular endotelial], que faz com que os vasos sanguíneos dilatem. E daqui, transplantaram os organoides nos rins dos ratos adultos.
Ao injetar os ratos com VEGF extra, os investigadores propiciaram a que o novo tecido dilatasse os seus próprios vasos sanguíneos em poucos dias. O tecido também desenvolveu glomérulos, câmaras onde o sangue invade os néfrones para ser limpo e filtrado.
Os investigadores injetaram ainda nos ratos proteínas de albumina, classificadas com marcadores que transmitem luz. Descobriram que os enxertos de rim filtravam, com sucesso, as proteínas da corrente sanguínea, garantindo que estas pudessem desempenhar de uma forma rude a principal função dos rins reais.
“Este é o primeiro tecido de rim no mundo feito totalmente a partir de células únicas. Temos um tecido funcional, viável e vascularizado, apto a filtrar o sangue e a absorver grandes moléculas deste”, afirmou Xinaris. “O objetivo final é construir tecidos humanos”, acrescentou.
“Esta técnica não pode ser usada clinicamente, mas revela um passo em frente que possibilita desenvolver um rim funcional no futuro”, completou Anthony Hollander, engenheiro de tecidos da Universidade de Bristol, do Reino Unido.
Xinaris e companhia estão, neste momento, a tentar descobrir como introduzir um canal para transportar urina para a bexiga. Jamie Davies, da Universidade de Edimburgo, e co-autor da investigação, afirma estar preparado para “construir rins com um sistema próprio de drenagem”. Mas o caminho ainda é longo. Este sistema ainda nem sequer foi aplicado em animais.
As células estaminais e as questões éticas
Um dos obstáculos desta investigação é descobrir fontes de células humanas que se comportem como as células de um rim de um embrião de um rato e reuni-las em estruturas complexas como os néfrones.
“Obviamente”, frisa Davies, não é ético extrair células estaminais do rim a crescer em embriões humanos, mas estão a surgir várias fontes potenciais de células. Exemplos: células estaminais do líquido amniótico ou da medula óssea, ou ainda células adultas como as células da pele convertidas em laboratório em células primitivas do rim.
Xinaris e Jamie Davies estão atualmente a trabalhar com células humanas, incorporando-as em culturas de células de ratos, que já se converteram em tecidos de rim. A equipa de Davies está a “desenvolver” rins dentro das membranas extraídas de ovos de galinha, o que lhe permite visualizar e manipular o processo inteiro.
Outra incógnita, à qual este estudo ainda não respondeu, é a dimensão que os rins podem atingir para exercerem corretamente as suas funções vitais. “Não sabemos se estes pequenos rins ‘fetais’ podem crescer o suficiente para se tornarem tecidos totalmente funcionais em humanos”, declarou Davies.
Este estudo encontra-se disponível na publicação online da American Society of Nephrology, desde 18 de Outubro, tendo como título “In Vivo Maturation of Functional Renal Organoids Formed from Embryonic Cell Suspensions”.
Fonte: Newscientist.com
Imagem: flickr
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