As três formas de terapia de substituição renal – Hemodiálise, Diálise Peritoneal e Transplante – são complementares umas às outras. O debate já não se foca mais na oposição Hemodiálise versus Diálise Peritoneal, mas na escolha entre a diálise domiciliária ou a diálise no hospital (ou num centro de diálise).
O transplante renal é a melhor forma de terapia de substituição renal (TSR), quer em termos de qualidade de vida, quer em termos do custo do tratamento. No entanto, não é a escolha adequada para todos os insuficientes renais e, daqueles que estão na lista de espera, apenas um em três são transplantados.
Portanto, a diálise ainda tem de ser uma forma maior de TSR. As tradicionais barreiras à Diálise Peritoneal (DP), como a obesidade, a fraca destreza, uma visão débil e a falta da função renal residual, podem ser ultrapassadas amiúde, com ligeiras modificações e uma melhor compressão da técnica da DP. A falha do acesso vascular é o maior obstáculo à Hemodiálise. De outro modo virtualmente todos os insuficientes renais podem recorrer à Hemodiálise, mesmo aqueles com tensão arterial baixa e uma função cardíaca diminuída.
Após vários anos de Hemodiálise, uma pequena percentagem de pacientes teria esgotado todas as opções de acesso vascular, incluindo os cateteres vasculares e a DP seria assim a única opção disponível.
Há certos grupos de insuficientes renais que não estão talhados para a DP e, em termos de Hemodiálise, caso não tenham capacidade para se “autodialisar”, terá de ser o centro de diálise a fazê-lo. A escolha é fácil para esse grupo. A Hemodiálise em Hospitais é obrigatória para o pequeno grupo de pacientes que se encontram instáveis na diálise, devido à instabilidade cardiovascular, e para aqueles com comorbilidades múltiplas. Alguns pacientes escolhem a DP em centro por várias razões, como a falta de confiança no manuseio da máquina, e circunstâncias domésticas, incluindo a falta de apoio, mesmo que haja pacientes que se dialisem em casa, sozinhos, e com sucesso.
Para todos os outros (aproximadamente 80% dos insuficientes renais) há um vasto leque de escolhas disponível. Se todas as formas de terapias de substituição renal são complementares umas às outras, como escolhemos uma em vez de outra? Há uma forma de terapia melhor do que a outra numa fase particular da jornada do paciente com falência renal?
Eu penso que é aqui que os pacientes precisam de ajuda dos profissionais de assistência médica para facilitarem a sua tomada de decisão. Não é uma questão de dizer-lhes o que fazer. É mais uma questão de educação e de preparação para ajudar os pacientes a fazerem a sua própria escolha. Certos cenários clínicos parecem lógicos e favorecem uma técnica particular de terapia.
Se algum insuficiente renal já dispuser de um potencial doador, mas não consegue um transplante prévio, deverá escolher a Hemodiálise com acesso vascular permanente? Imagine que um paciente tem formada uma Fístula Arteriovenosa e está a usá-la há 1-2 anos e depois consegue um transplante, vai ter que viver então com esta fístula por 10-15 anos ou mesmo mais tempo. Mesmo que esta não seja usada, ainda precisa de ser monitorizada, e uma grande fístula arteriovenosa no braço não é bonita de se ver, particularmente quando não está a ter qualquer uso.
DP pode ser realizada de forma segura durante os primeiros 2, 3 anos, com o ligeiro benefício de uma melhoria na sobrevivência e, mais importante ainda, de preservar a sua função renal residual. Para os doentes elegíveis a um transplante renal, a diálise tem de ser utilizada como uma ponte antes do transplante.
Outro tópico de discussão importante é se a diálise domiciliária é mais adequada a pacientes que estão a trabalhar ou têm um estilo de vida muito ativo. Não é apenas útil para pessoas que trabalham, mas também para a maioria das pessoas reformadas, que também têm uma rotina, e que planearam muitas atividades, especialmente nos primeiros anos do seu período de reforma.
Ninguém, incluindo o grupo de pacientes mais idosos, aprecia uma grande perturbação no seu estilo de vida e nós temos que ajudá-los a escolher a modalidade que causa o menor transtorno no seu estilo de vida. A DP tem uma grande vantagem adicional neste caso, podendo ser efetuada quer no local de trabalho, quer em casa. Ter que ir ao hospital (ou clínica) três vezes por semana para tratamentos de 4 horas, com períodos de espera e deslocação adicionais, pode tornar-se um caso de um dia inteiro para certos pacientes.
Os idosos são um grupo de pacientes muitas vezes prejudicados por não ser considerada para si a opção da diálise domiciliária. Eu acredito firmemente que, como profissionais de saúde, nós subestimamos as capacidades de muitos destes pacientes. Com ajuda extra, a maioria destes pacientes podem ser dialisados em casa. A DP assistida, em que um profissional dê assistência médica ajuda o paciente a ligar a máquina e a monitoriza-lo todos os dias, tem aberto a opção DP a muitos pacientes idosos mais frágeis que gostariam de receber a sua diálise em casa.
O reaparecimento da hemodiálise domiciliária abriu uma multiplicidade de novas formas de poder dialisar as pessoas. Quem pode escolher a hemodiálise domiciliária? Tirando um pequeno número de pacientes, virtualmente todos podem ser dialisados em casa. Há pessoas a serem dialisadas em casa sem nenhum membro da família a viver com elas. A falta do acesso vascular permanente não é uma barreira e há pessoas que optam pela diálise domiciliária que recorrem a um cateter venoso tunelizado. Se o tamanho do quarto não permite alojar a tradicional máquina de diálise, há novas máquinas, mais pequenas, portáteis, que podem ser colocadas numa mesa de café.
O futuro na diálise domiciliária comporta uma grande promessa e até aos rins artificiais dispensarem a procura da diálise e a necessidade de doar órgãos, devemos trabalhar no sentido de prestar cuidados de saúde o mais próximo de casa.
Autor: Dr. Babu Ramakrishna
Fonte: Dialysis Diaries
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