
Na quinta-feira passada, um ataque cardíaco trocou as voltas ao coração de Joseph Murray. O autor do primeiro transplante renal bem-sucedido da história viria a morrer ontem, aos 93 anos, em Boston.
Nascido no estado americano de Massachusetts, Murray foi reconhecido mundialmente em Dezembro de 1954 por ter realizado o primeiro transplante de rins humanos, entre os gémeos Richard e Ronald Herrick.
Até ao início dos anos 1950, nunca tinha havido um transplante de órgãos humanos bem-sucedido. Depois de desenvolver uma série de novas técnicas cirúrgicas, e de adquirirem conhecimentos através de transplantes de rins realizados com cães, Murray e a sua equipa médica davam um passo de gigante, ao efetuarem o transplante de um rim do gémeo Ronald para o gémeo Richard, que estava na fase final de falência renal.
Devido a um historial genético idêntico, recorda o jornal New York Daily News, estes irmãos não se depararam com “o maior problema dos pacientes que se submetem a transplante, a rejeição pelo sistema imunitário de um tecido estranho”. Após a operação, Richard conseguiu viver com um rim funcional durante oito anos.
Em 1990, Murray recebeu, com E. Donnall Thomas, o Prémio Nobel da Medicina pelas descobertas realizadas por ambos na área de transplantes de órgãos e células para tratamento de doenças humanas.
“As descobertas de Murray e Thomas são cruciais para as dezenas de milhares de pessoas muito doentes, que podem ser curadas ou ganhar uma vida normal quando outros métodos de tratamento não têm sucesso”, podia-se ler no documento que justificava o galardão atribuído pela Academia Sueca.
Ao jornal New York Times, Murray reagiu assim à distinção: “Os transplantes de rins parecem tão rotineiros nos dias de hoje, mas o primeiro foi como o voo sobre o Oceano de Lindbergh [o primeiro voo solitário transatlântico]”.
Inicialmente, o seu trabalho de “experiências em humanos”, como lhe chamaram os detratores, foi criticado por líderes religiosos e por especialistas em Ética, por considerarem-no uma tentativa de “fazer de Deus”, recordava Joseph em entrevista à agência Associated Press em 2004, na qual também defendia a investigação envolvendo células estaminais.
O interesse de Murray pelos transplantes desenvolveu-se durante o período em que estava a servir o exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial, enquanto médico. O hospital onde trabalhava levou a cabo uma cirurgia reconstrutiva em tropas que foram feridos durante as batalhas.
Na autobiografia “Surgery Of The Soul: Reflections on a Curious Career” [Cirurgia da Alma: Reflexões sobre uma Carreira Curiosa], publicada em 2001, Murray escreveu: “A minha vida como cirurgião-cientista tem sido muito recompensadora. Nos pacientes, testemunhamos a natureza humana no medo mais cru, no desespero, na coragem, na compreensão, na esperança, na resignação, no heroísmo. Se estivermos alerta, podemos detetar novos problemas para resolver, novos caminhos para investigar.”
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