Transplantação renal com dador vivo

 

A transplantação pode realizar-se com rins provenientes de pessoas que faleceram (dador cadáver) ou com um rim doado por uma pessoa viva (dador vivo).

A transplantação renal  a partir de dador vivo está legislada através da Lei n.º 12/93, de 22 de abril, com as alterações introduzidas pela Lei n.º 22/2007, de 29 de junho. Pode esclarecer as suas dúvidas junto do seu nefrologista e da equipa de transplantação.

As principais vantagens de o dador ser vivo são de dois tipos: primeiro, os resultados com o transplante de dador vivo são melhores que com o dador cadáver, com uma maior e significativa probabilidade de o transplante “pegar”; segundo, dispensa a inscrição do doente em lista de espera para transplantação a aguardar que surja um dador cadáver compatível.

A desvantagem é a de ser necessário extrair cirurgicamente um rim a uma pessoa sã (dador), com os inerentes riscos que adiante se descreverão.

 

A DOENÇA RENAL CRÓNICA É UMA PATOLOGIA PROGRESSIVA, COM ELEVADA TAXA DE MORTALIDADE, QUE AMEAÇA TORNAR-SE NUM GRAVE PROBLEMA DE SAÚDE PÚBLICA COM IMPLICAÇÕES SÉRIAS NO SERVIÇO NACIONAL DE SAÚDE

 

RISCOS E COMPLICAÇÕES DO RECETOR DE RIM DE DADOR VIVO - RELACIONADOS COM A INTERVENÇÃO CIRÚRGICA

É habitual que, durante a intervenção cirúrgica, se coloque um tubo de drenagem junto à ferida operatória e uma algália que se mantêm durante vários dias.

A emissão de urina é imediata em algumas ocasiões mas, em outras, pode demorar vários dias, o que implicará realizar uma ou mais sessões de diálise pós-operatórias.

 

Por vezes, apesar de uma seleção e técnica cirúrgica adequadas, surgem diversas complicações. Algumas delas são comuns a qualquer intervenção e outras são específicas do procedimento de transplantação renal:

  • Para a intervenção é imprescindível colocar um tubo na traqueia através da garganta. Como consequência, pode ocorrer disfonia (alterações da voz), inflamação das zonas em que se coloca o referido tubo, fratura de alguma peça dentária, etc. Muito raramente, podem vir a ocorrer dificuldades respiratórias ou ser necessária uma ulterior intervenção cirúrgica para corrigir lesões nesta zona.

  • Durante a intervenção ou imediatamente após podem ocorrer alterações da pressão arterial, do ritmo ou do funcionamento cardíaco que necessitem de imediato tratamento.

  • Durante a transplantação, pode ser necessário efetuar algum tipo de transfusão (glóbulos vermelhos, plaquetas, plasma). Estes componentes do sangue provêm de doadores saudáveis que não recebem compensação alguma pela doação. Cada amostra é exaustivamente estudada para detetar a eventual presença dos agentes infeciosos das hepatites B e C, da sífilis e do VIH. Muito raramente, e apesar desses sistemáticos cuidados, há a diminuta possibilidade de os dadores serem “falsos negativos”, isto é, a pesquisa ser negativa apesar da pessoa ser portadora de um daqueles microrganismos. Portanto, não existe a garantia absoluta de que o sangue e os seus componentes não lhe transmitirão aquelas doenças infeciosas, bem como, hipoteticamente, outras hoje ainda não conhecidas. Outro risco da transfusão é a ocorrência de reações alérgicas que, na grande maioria dos casos, são leves (febre, tremores…), mas que, excecionalmente, podem ser graves.

  • Pode ser impossível concluir com êxito a implantação do rim por impossibilidade técnica.

  • Podem ocorrer reações alérgicas a medicamentos.

  • Complicações da ferida operatória como infeções, hérnias, etc., algumas das quais podem requerer nova intervenção cirúrgica.

  • Complicações devidas à abertura da cavidade abdominal, como paralisação temporária do trânsito intestinal, infeções, perfuração intestinal, etc., que, embora raramente, podem vir a colocar a necessidade de recorrer a nova intervenção cirúrgica para a sua correção.

  • Complicações nas artérias e nas veias intervencionadas que podem implicar atuações especiais para a sua correção. Estas complicações podem afetar, em grau variável, o funcionamento do transplante: a trombose da artéria ou da veia do rim pode levar à sua perda definitiva; a trombose das veias ilíacas ou do membro inferior torna necessários cuidados especiais para limitar os seus ricos.

  • Coleções de líquido ao redor do rim que podem necessitar drenagem.

  • Infeções pulmonares, urinárias ou de outras localizações que podem ser provocadas por diversos microrganismos e cuja gravidade é, em geral, maior do que em outro tipo de doentes, dada a necessidade de instituir tratamentos que diminuem as defesas naturais do organismo e que se destinam a reduzir o risco de rejeição do rim transplantado.

 

Pós transplante renal

Independentemente da origem do rim que receber, o procedimento cirúrgico é o mesmo. Na colocação do novo rim, não será necessário retirar os outros. A cirurgia é considerada de risco na qual o rim é colocado na região abdominal direita ou esquerda. Tem uma duração em média 4 horas, é realizada no Bloco Operatório sob anestesia geral.

Ao fim de algumas horas, começará a urinar e para isso irá permanecer uma sonda vesical durante alguns dias. Em raras circunstancias, pode mesmo não chegar a funcionar. Poderá precisar de alguma diálise  enquanto espera que o rim transplantado comece a funcionar corretamente.


As primeiras horas são as mais importantes na evolução do rim. Para a prevenção de complicações será necessária a administração de medicamentos específicos ( medicação anti-rejeição) para prevenir que o seu organismo rejeite o novo rim, por vezes, nem estes medicamentos conseguem evitar a rejeição. Estes medicamentos podem ter efeitos  adversos indesejáveis – os mais comum são a fragilização do sistema imunitário ( menor capacidade de combater infeções, aumento de peso, hipertensão, aumento do colesterol. Apesar de comuns, existem alguns doentes, que apresentam pouco ou nenhuns destes problemas.

No entanto, será acompanhado por uma equipa de profissionais que o ajudarão a esclarecer todas as suas questões e dúvidas.

O período de hospitalização é de uma ou duas semanas. Após a alta, terá que voltar regularmente à unidade de transplante para consultas de acompanhamento é de uma ou duas semanas.

 

O potencial dador de rim em vida tem de ser previamente avaliado com o objetivo de verificar, com o menor grau de erro possível, que:

  • É de sua livre vontade que doa um rim seu ao doente potencial recetor;

  • A sua doação é benévola e não é motivada por qualquer outro interesse, designadamente pecuniário, para além do benefício o doente;

  • Se encontra devidamente informado sobre os riscos e complicações derivados da doação, bem como sobre a legislação aplicável;

  • Há suficiente compatibilidade imunológica com o doente para efetuar a transplantação;

  • Possui dois rins saudáveis;

  • Não sofre de qualquer doença que, pelo ato de doação, sejam colocadas em risco a sua vida ou a sua saúde.

  •  

Assim, será submetido a observação médica, a entrevista com psicólogo e a diversos exames. Serão efetuadas análises de sangue e de urina. Serão, também, efetuados diversos exames (eletrocardiograma, radiografias, ecografias). Eventualmente, será necessário submetê-lo a exames radiológicos com administração endovenosa de contraste. Todos os exames a serem efetuados que envolvam algum potencial risco serão, previamente, objeto do seu consentimento informado.

 

Riscos e complicações da doação de rim em vida

Ao decidir livre e conscientemente doar um dos seus rins, deve conhecer a intervenção cirúrgica a que se irá submeter e que é designada por nefrectomia (remoção de rim).

Esta Cirurgia consiste na remoção de um dos rins em conjunto com o seu ureter e os seus vasos sanguíneos (artéria e veia), podendo ser efectuada por via aberta (cirurgia clássica), ou por via laparoscópica. A operação cirúrgica será efetuada no bloco operatório sob anestesia geral.

Nesta modalidade, o procedimento é feito através de pequenas incisões no abdómen, sendo depois uma das incisões alargada para a extracção do rim.

Não está demonstrada qualquer vantagem ou desvantagem desta técnica para o recetor. Já em relação ao dador, as suas vantagens são uma hospitalização pós-operatória previsivelmente mais curta , menor dor no pós operatório, mais rápida recuperação para a retoma da atividade profissional e a cicatriz operatória ser muito menos evidente.

Informe-se junto do seu médico sobre as técnicas disponíveis no seu hospital.

 

Riscos e complicações da anestesia geral

  • Para a intervenção é imprescindível colocar um tubo na traqueia através da garganta. Como consequência, pode ocorrer disfonia (alterações da voz), inflamação das zonas em que se coloca o referido tubo, fratura de alguma peça dentária, etc. Muito raramente, podem vir a ocorrer dificuldades respiratórias ou ser necessária uma ulterior intervenção cirúrgica para corrigir lesões nesta zona.

  • Durante a intervenção ou imediatamente após podem ocorrer alterações da pressão arterial, do ritmo ou do funcionamento cardíaco que necessitem de imediato tratamento. Também, embora raramente, podem ocorrer graves infeções pulmonares ou do mediastino (espaço entre o coração e os pulmões).

  • Náuseas (enjoos), vómitos, úlceras de córnea, reações alérgicas, flebites ou flebotromboses (tromboses das veias, acompanhando-se ou não, de inflamação), embolia pulmonar, etc.

  • Durante a nefrectomia, pode ser necessário, embora raramente, efetuar algum tipo de transfusão (glóbulos vermelhos, plaquetas, plasma). Estes componentes do sangue provêm de doadores saudáveis que não recebem compensação alguma pela doação. Cada amostra é exaustivamente estudada para detetar a eventual presença de agentes infeciosos, designadamente das hepatites B e C, da sífilis e do VIH. Muito raramente, e apesar desses sistemáticos cuidados, há a diminuta possibilidade de os dadores serem “falsos negativos”, isto é, a pesquisa ser negativa apesar da pessoa ser portadora de um daqueles microrganismos. Portanto, não existe a garantia absoluta de que o sangue e os seus componentes não lhe transmitirão aquelas doenças infeciosas, bem como, hipoteticamente, outras hoje ainda não conhecidas. Outro risco da transfusão é a ocorrência de reações alérgicas que, na grande maioria dos casos, são leves (febre, tremores…), mas que, excecionalmente, podem ser graves.

 

Riscos e complicações relacionados com o ato cirúrgico

  • Reações alérgicas a medicamentos.

  • Hemorragia durante e depois da intervenção que, em alguns, casos pode requerer transfusão sanguínea ou, inclusivamente, nova intervenção cirúrgica para o seu controlo.

  • Complicações da ferida operatória como infeções, hérnias, etc., algumas das quais podem requerer nova intervenção cirúrgica.

  • Complicações devidas à abertura da cavidade abdominal, como paralisação temporária do trânsito intestinal, infeções, perfuração intestinal, etc., que, embora raramente, podem vir a colocar a necessidade de recorrer a nova intervenção cirúrgica para a sua correção.

  • Infeções de localização variável, que podem ser provocadas por diversos micro-organismos.

  • Infeções da ferida operatória.

  • Infeções urinárias como consequência da algaliação.

  • Pequenas infeções pulmonares secundárias à hospitalização, efeitos secundários da anestesia, etc.

  • Flebites (infeção/irritação da veia), secundárias a punções para administração de soros, repouso prolongado, etc.

Em geral, estas complicações são relativamente frequentes mas pouco graves e cedem bem ao tratamento, não representando risco para o futuro.

Inclusivamente pode existir risco de morte (raríssimo).

 

Futuro com apenas um rim

O facto de viver com um só rim não implica nenhuma inferioridade física. Pessoas que nascem com rim único ou as submetidas a nefrectomia unilateral por qualquer motivo (doação, traumatismo, doença, etc.) não têm a sua vida e a sua saúde comprometidas desde que o outro rim seja saudável.

O desenvolvimento futuro de doenças que possam danificar o seu único rim é totalmente imprevisível, embora seja um indicador positivo não apresentar atualmente nenhum fator de risco para doenças renais.

Todavia, deverá prosseguir um programa de vigilância clínico-laboratorial a ser estabelecido pelo nefrologista do hospital onde se efetuará a transplantação.

Ocasionalmente, em alguns momentos da sua vida futura, podem surgir ansiedade, receio do futuro, depressão, etc. Tudo isso deve ser transmitido à equipa médica da unidade de transplantação que, sempre que necessário, recorrerá a apoio psicológico especializado. Mas, em geral, basta a consciencialização dos ganhos proporcionados pela sua dádiva – bem-estar do recetor, satisfação pelo ato altruísta praticado, sensação de utilidade à sociedade – para, fácil e rapidamente, ultrapassar bem esses problemas psicológicos.

Os benefícios esperados predominam, largamente, sobre os riscos em que incorrem o dador e o recetor. No entanto, e pese muito a probabilidade de êxito da transplantação ser superior a 95% ao fim de um ano, é impossível assegurá-lo pelas razões atrás descritas.

 

Uma sociedade mais informada é uma sociedade mais solidária

 

Transplante renal com dador vivo estrangeiro

De acordo com o n.º 6 do artigo 6.º da Lei n.º 12/93, de 22 abril, alterada e republicada pela Lei n.º 22/2007, de 29 de junho, «a dádiva e colheira de órgãos e tecidos não regeneráveis, que envolvem estrangeiros sem residência permanente em Portugal, só podem ser feitas mediante autorização judicial».

A legislação portuguesa admite, assim, a possibilidade de se realizarem transplantes com órgãos provenientes de dadores vivos estrangeiros sem residência permanente desde que a dádiva e colheita sejam autorizadas judicialmente.  

 

Publicado: portaldadialise | 2016-07-10 14:15 Última atualização: 2016-07-10 14:15 Imagem: © Flickr - Junior Petroneri
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